Um Limite Entre Nós (2016) – [2017/020]

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Título original: Fences – Diretor: Denzel Washington – País: EUA – Ano: 2016

Adaptações teatrais tendem a ser uma faca de dois gumes. Quando abraçam demais a nova mídia, acabam exagerando a “ação” e deixando a dinâmica do roteiro e dos diálogos de lado, descaracterizando o original. Porém, há também a possibilidade de se aterem demais ao status de teatro e esquecerem que estão em uma nova mídia, com um timming e dinâmica bem diferente. Um Limite Entre Nós se encaixa no segundo caso, mas graças a solidez de seus diálogos e às ótimas interpretações do elenco faz com que nós esqueçamos desse “problema”.

O filme acompanha a história de Troy Maxson (Denzel Washington), um lixeiro que vem ficando bastante insatisfeito com os brancos serem os que dirigem os caminhões enquanto que os negros é que pegam o lixo. Dia após dia ele compartilha suas frustrações com seu amigo e colega de trabalho Bono (Stephen Henderson) e é constantemente acolhido ao chegar em casa por sua esposa Rose (Viola Davis). O que a princípio parece uma família comum e, até onde é possível, feliz, acaba se revelando um antro de infelicidade centrado em Troy.

Frustrado por não ter conseguido jogar baseball profissionalmente, Troy agora proibe o filho Cory (Jovan Adepo) de aceitar uma bolsa de estudos para jogar futebol americano na faculdade. Seu outro filho, Lyons (Russel Hornsby) é músico e luta constantemente consigo mesmo para continuar buscando uma carreira na música enquanto tenta atrair a atenção e a aprovação do pai, que nunca vem. Troy ainda tenta cuidar de seu irmão Gabriel (Mykelti Williamson), que desenvolveu disturbios mentais após ter sido ferido na cabeça na Segunda Guerra. Para piorar o cenário, o protagonista ainda se sente culpado por ter usado o dinheiro da idenização do irmão para comprar a casa onde mora com a família.

No entanto, Troy é bastante teimoso e insensível. Tendo crescido num mundo fortemente racista e com um pai violento e nada acolhedor, ele acabou desenvolvendo uma concepção deturpada de responsabilidade que não consegue largar. Essa personalidade difícil é o epicentro dos principais conflitos daquele lar e ele jamais vai aceitar isso. Para ele, prover o apoio financeiro para seus filhos e para sua mulher é o que basta. Exigir qualquer coisa além disso não condiz com “suas obrigações”. E nesse balaio está amor, afeto e carinho. Denzel Washington, como Troy, deixa claro para o espectador como aquele homem é difícil de se “parar”, de se interromper, de se questionar. Ele é um personagem forte e incisivo em seus diálogos e monólogos. Seu amigo Bono é que consegue, de alguma forma, ainda alertá-lo para certas escolhas, mas ainda assim apenas superficialmente. É triste ver Viola Davis como uma Rose triste e desesperançada. Ela ama as qualidades do marido, mas se frustra por ter se dedicado demais a ele e à felicidade dele, sem ter pensado um pouco em si também e exigido algo mais em troca.

Um Limite Entre Nós é sim bastante teatral. Estático (se passa todo praticamente em um único cenário) e carregado de diálogos. Mas quando esses diálogos e esse cenário são preenchidos por um elenco com tanto carisma e sintonia, não tem como considerar isso um ponto negativo. August Wilson, que escreveu a peça original e adaptou o roteiro, sabe como usar bem as palavras e, embora tenha feito uso de simbolismos bobos e óbvios, deu falas inspiradas para seus personagens. Temos ali um protagonista recheado de falhas, teimoso e que não consegue enxergar os próprios erros, sem saber que isso não prejudica só a si, como a todos os outros ao seu redor.

Nota: ★ ★ ★ ★ ☆

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